Durante meu confronto com Carr não pude deixar de notar as vozes que ecoavam no vazio que se tornara minha casa em chamas. A cada choque de nossas lâminas varias luzes que se assemelhavam a uma espécie de fogo fátuo apareciam e nos limites da ilusão.
O eu que há um momento fora apenas um viajante por mais de vinte anos agora reencontrava seu desejo árduo pela batalha, pelo cheiro de sangue e cinzas, pela sensação de aço cortando carne, pelo som dos gritos de dor e agonia enquanto enviávamos os vivos para um mundo de tribulações no purgatório, que agora parece ser apenas uma mentira.
Meu adversário parecia também reencontrar sua paixão pela inevitável morte de um homem. Mas essa seria especial; vinte anos à espera de seu assassino devem ser o suficiente para construir uma cidadela de raiva e vingança. E a cada instante que se passava, minha raiva, meu ódio e minhas memórias também se tornavam mais vivos. A visão de minha família morta, dilacerada e destruída começava a se materializar onde aquele fogo fátuo se reunia para dar continuidade a seus cantos de desolação e desespero:
"Estuans interius ira vehementi
Sors immanis
Et inanis
Veni veni venias
ne me mori facias"
Não parecia haver fim para nossa guerra particular. Os cantos ficavam mais altos, mais altos e mais dolorosos. O insanidade de Carr transfigurava seu rosto a cada grunhido proferido. De tão concentrado que estava, não pude reparar que a ilusão também se transfigurava. Em uma última investida, ambos fomos atirados pela força do golpe do outro para os extremos do ambiente, uma praça em meio a vários prédios de concreto destruídos.
Quando ambos retomamos nossas posições, o silêncio absoluto, nem nossos corações ou respiração podiam ser ouvidos, o homem insano começou a proferir versos da canção dos fantasmas de minha casa:
"Veni veni venias
ne me mori facias
...
Haryuu no Hanekata!"
Com essa última exclamação, um anjo negro desceu dos céus. Trajava uma vestimenta preta com um capuz também preto, apenas sua branca mão esquerda (a direita estava coberta por um pedaço de armadura que se parecia com as garras de um demônio) e seus olhos profundamente azuis podiam ser vistos. Suas asas, repletas de penas negras, encheram tudo com sua escuridão, como se devorasse a própria luz. Desembainhou sua espada e veio, andando calmamente, em minha direção.
O som de suas botas colidindo com o concreto era a própria definição do desespero. Seus olhos azuis penetraram em minha alma e me forçaram a sair de minha tradicional postura, com a espada embainhada e segura na mão esquerda, com a direita pronta para sacá-la a qualquer momento.
Ao parar diante de meu corpo imóvel, o anjo ergueu-me no ar, usando nada mais que seu olhar demoníaco. Vitanova caiu de minha mão, deslizando para fora de sua bainha durante a queda. As inscrições, que antes de obter o anel de minha esposa estavam apagadas e ilegíveis, agora ressoavam com as da espada do anjo negro.
A paralisia que me afligira cessou e, com isso, meu corpo retornou ao solo. A força que sentia dos olhos azuis do ser a minha frente enfraqueceu, e ele cravou sua lâmina no chão, à frente de meus pés. Peguei minha própria arma e repeti o gesto, sem saber exatamente por que o fazia. "Deveria matá-lo enquanto tenho a chance! Depois, mato Carr com a arma de seu próprio truque.", pensei, mas nada pude fazer; o olhar da criatura ainda me tinha como refém.
"Vida e Morte; dois lados de uma realidade cruel. Guardei um dos lados como me foi ordenado, passo-o agora para seu legítimo herdeiro. Mas antes, devo punir aquele que me invocou sem merecer minha dádiva."
Com essas palavras frias, mortas, o guardião se voltou para Carr e caminhou em sua direção tão rápido quanto havia vindo em minha. Porém, o lunático não estava paralisado; avançou de forma bestial e pronto para desferir um golpe capaz de matar até os mais bem protegidos homens em suas armaduras.
Com um rápido movimento, o anjo desviou seu corpo da trajetória da arma, mas a magia negra que emanava da espada de nosso adversário foi forte o suficiente para ferir-lhe a asa esquerda. Ignorando a dor, retribuiu a investida com um golpe rápido no braço de Carr que segurava a espada, decepando-lhe o membro. Pegou a espada para si e, finalmente, atravessou o coração do bastardo. Nem uma unica gota de sangue foi derramada durante o processo.
O homem morto e sua arma desapareceram. A sala voltou ao seu estado inicial. Nunca o silêncio desse limbo para que fui enviado fora tão agudo e solitário. O anjo, que agora tinha apenas uma asa, permaneceu onde estava.
"Vida e Morte unidas mais uma vez. Sua jornada não acaba aqui. Sua segunda metade, Nostrum, jaz a seus pés. Use-a para encontrar o que procura."
E com essas últimas palavras, o ser que poderia ser meu assassino se foi. Sua asa amputada permaneceu na sala, juntamente com a bainha de minha nova arma, Nostrum.
Tão leve! Não haveria dificuldade alguma caso precisasse de usá-la juntamente com Vitanova. Coloquei ambas as armas em meu sinto. Atravessei até o lado oposto ao que tinha vindo. O par de lâminas cruzadas na maçaneta emitiam uma luz fraca e pouco quente. Girei-a.
Ao deixar a sala, não senti a porta se fechar, mas, ao olhar de onde tinha vindo, ela não estava mais lá; via apenas o lado do caminho que terminava tão abruptamente. Segui minha nova trilha, nada diferente pela qual vim.
E a luz, a cada passo, ficava mais intensa.
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