Estava sentada como de costume olhando para o nada. Na verdade, olhar para o nada é muito. É a coisa mais interessante para se fazer, pois me permite viajar para dentro de mim e me procurar no lugar certo. Só que desta vez alguém me tirou de lá.
Com uma risada contida e o rosto vermelho, uma chimpanzé loira de unha verde fluorescente, muito parecida com todas as outras que estampam as capas de revistas para chimpanzés, se aproximou e me disse “Ei, para de viajar na maionese e volta pra realidade. Você está parecendo uma doida.” Nesse momento, todos os chimpanzés com que convivo diariamente riram de mim. Respirei bem fundo e repeti mentalmente aquela que praticamente virou meu mantra: “EU NÃO PERTENÇO A ESSE LUGAR. ESTOU SÓ DE PASSAGEM!”.
Pensando bem, eu não pertenço a lugar algum, pois o lugar a que pertenço não é físico, e eu o posso chamar só de meu. Pelo menos é o que eu acho, é o que eu prefiro achar. O lugar a que pertenço é a minha mente, meu consciente e meu subconsciente, principalmente à esse último, harmonioso sótão de minha morada.
No meu confortável lar, sou miserável, sou rainha, sou filósofa, sou aventureira, sou maga, sou artista, sou livre, sou deus. Deus não! Isento-me dessa responsabilidade de criar as coisas, pois o que eu quero é me deixar ser inventada, não pelos ignorantes forasteiros, chimpanzés que imitam a idiotice uns dos outros sem nem ao menos saber o motivo, mas pelo imenso Teatro que guardo em meu porão e pelo Circo que se criou em meu sótão. Quero ser inventada pelos inúmeros personagens que moram comigo, dos Palhaços às Bailarinas, dos Shakespeares aos Leões, dos Trapezistas às Camponesas, dos Cavaleiros aos Dragões. Eu quero me encontrar com a minha realidade. Quanto às outras, estou só de passagem.
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