segunda-feira, 26 de julho de 2010

Epílogo de uma Existência (II)

A inscrição no anel pulsava como se todo o seu interior fosse o abrigo de uma violenta pira que nunca se apaga. Coloquei-o em meu polegar esquerdo e, instantaneamente, o frio que açoitava meu corpo naquele Caminho esquecido por todos os deuses foi rapidamente expulso e deu lugar a um calor que meu deu forças para continuar. Podia ver com mais clareza a luz que me aguardava no fim de meu caminho, seu brilho era mais intenso e, ao mesmo tempo, mais tentador.
Comecei a correr. Corri por muito tempo e, não sei se graças ao novo anel ou não, meu cansaço parecia ter sido afugentado de mim juntamente com o frio; minha espada parecia mais leve e o chão menos acidentado. Corri até chegar a uma porta. Não havia paredes para sustentá-la , ela simplesmente se erguia do chão e permanecia imóvel à minha frente. Atrás da porta, o Caminho era cortado pelo oceano à minha volta, e continuava a aproximadamente 20 metros de onde acabava. A luz continuaria fora de meu alcance por pelo menos mais algum tempo. Voltei-me para a porta. Observando-a com mais detalhes pude ver que haviam palavras entalhadas na mesma:

"Novus Vita"

Ao mesmo tempo, havia um par de lâminas cruzadas na maçaneta. O que aquilo poderia significar estava além de meu alcance, mas o instinto de desembainhar minha própria lâmina foi tão forte que o obedeci. Abri a porta, esperando nada mais que apenas ver o outro lado, mas o que me foi mostrado me arrebatou por sua simplicidade.
Uma sala branca, com algumas poucas colunas, uma porta do outro lado, e um homem cabisbaixo no meio da sala. Quando o mesmo levantou sua cabeça, seus olhos se abriram, e a sala, que a um único instante fora a essência da tranquilidade, tornou-se as ruínas de uma casa devastada, cercada por chamas e destruição por todos os lugares.
Só quando as chamas queimaram com todo o seu ardor fui capaz de reconhecer quem esperava. Eu o havia matado durante meus tempos no exército de meu país, durante um dos vários confrontos entre nós e os rebeldes que tentavam colocar um nobre, que fugiu devido à sua condenação por traição ao povo de Nova Meria, no comando de nossa recém formada pátria. Esse homem era ninguém menos que o comandante de um dos regimentos, um monstro nos campos de batalha; um monstro capaz de matar não só com a força colossal de sua espada e de seu corpo, mas também com artifícios maléficos que lhe foram atribuídos por um demônio. O único nome conhecido deste lunático era Carr.
"Da última vez que nos encontramos você era mais jovem, Miguel. E aqui estamos nós, mais uma vez, nas ruínas de sua casa, prontos para decidirmos quem continuará em seu caminho. Mas sinto falta de algumas coisas. Sinto falta do cheiro do sangue de sua esposa, e as memórias dos gritos de seus filhos está cada vez mais fraca."
"Da última vez que nos vimos você era mais medonho. Os anos nesse lugar devem ter te deixado bonzinho. Eu não deveria lhe contar isso, mas que se dane: sua irmã está sendo um grande atrativo no cidade, quase todos os soldados e homens a conhecem muito bem."
O efeito dessa última citação não poderia ter sido maior. O sorriso de insanidade que Carr trazia em seu rosto foi substituído por pura fúria e sede de sangue. O lunático começou a falar alguma coisa, mas não prestei atenção; encontrara o anel de noivado que pertencera a minha esposa. Coloquei-o no mesmo lugar onde meu anel correspondente estivera tantos anos atrás, quando meus cabelos ainda não eram tão grisalhos como hoje e minha espada ainda era conhecida como Vitanova.
Os anéis deste lado da existência têm algo a mais em sua essência. Juntamente com as memórias que fluíram deste "novo" anel, transformei-me no meu antigo eu; no que havia lutado nas guerras e confrontado Carr.
"Você poderia calar a boca e irmos direto ao assunto ou vou ter de contar tudo que fizemos com você e seus amiguinhos?"
"Desta vez não será a morte o destino do derrotado. Será o aniquilamento de sua alma!"
E, com estas palavras, o meu confronto com Carr teve sua continuação iniciada.

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